Fui assistir All Her Fault esperando uma boa série cheia de reviravoltas (o que ela entrega de maneira excelente!). Mas, para além do suspense, algo ficou ecoando em mim de forma bem mais silenciosa e incômoda: a solidão que atravessa a experiência da maternidade.
E não, não é aquela solidão óbvia de “estar fisicamente sozinha”. É uma solidão emocional, subjetiva, que aparece mesmo quando há um parceiro, família, amigos, rotina cheia e mil responsabilidades sendo cumpridas.
A maternidade, do jeito que a sociedade construiu, costuma ser vendida como algo que deveria preencher tudo. Trazer sentido, amor absoluto, realização plena. Quando isso não acontece dessa forma, ou quando vem misturado com cansaço, ambivalência, medo e dúvida, muitas mulheres se sentem inadequadas. Como se houvesse algo errado com elas.
Na série, o que mais chama atenção não é apenas o enredo, mas o peso que recai quase exclusivamente sobre as mulheres. A mãe é constantemente observada, julgada, questionada. Suas decisões são escrutinadas. Suas falhas ganham holofote. Já os homens, muitas vezes, transitam com mais margem de erro, menos cobrança e menos culpa.
Isso não é ficção exagerada. É um retrato bastante fiel da realidade.
Ser mãe, hoje, costuma significar carregar múltiplos papéis ao mesmo tempo: cuidar, produzir, sustentar, organizar, antecipar problemas, regular emoções próprias e alheias. E fazer tudo isso “bem”, com paciência, equilíbrio e gratidão. Quando o cansaço aparece, quando a mulher se sente sozinha mesmo rodeada de pessoas, surge também a culpa. Como se admitir essa solidão fosse uma falha moral.
Mas sentir solidão na maternidade não significa falta de amor pelos filhos. Significa, muitas vezes, falta de espaço para existir como sujeito. Falta de escuta. Falta de acolhimento real para aquilo que não cabe no discurso idealizado da “boa mãe”.
All Her Fault incomoda porque expõe essa desigualdade de cobrança e porque nos faz olhar para o quanto as mulheres seguem sendo responsabilizadas por tudo. Pelo que fazem, pelo que não fazem, pelo que poderiam ter feito diferente.
Ainda assim, é uma série que vale muito a pena assistir. Prende, provoca, gera conversa e, principalmente, abre brechas para reflexões importantes sobre maternidade, solidão, culpa e expectativas irreais.
Talvez o maior mérito da série seja justamente esse: lembrar que, por trás de histórias complexas e decisões difíceis, existem mulheres tentando dar conta de um mundo que exige demais e oferece de menos.

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