(Falas “normalizadas”que machucam)
Existem frases que parecem pequenas, inofensivas, até carinhosas.
Elas costumam vir acompanhadas de risadas, tom de brincadeira ou preocupação disfarçada.
Justamente por isso, podem passar despercebidas.
Mas quando essas falas se repetem ao longo da vida (especialmente na infância, na adolescência e dentro do ambiente familiar) elas deixam marcas reais na forma como uma pessoa se percebe, se cuida e se relaciona com o próprio corpo.
O que são falas normalizadas
Falas normalizadas são comentários socialmente aceitos, repetidos sem questionamento, que avaliam, comparam ou regulam corpos, comportamentos e escolhas.
Alguns exemplos comuns:
- “Engordou, hein?”
- “Magrinha desse jeito vai sumir.”
- “Vai repetir?”
- “E a dieta?”
- “Na sua idade eu era mais magra.”
- “É só fechar a boca.”
Essas frases raramente são ditas com a intenção de ferir.
Mas intenção não anula impacto.
O efeito psicológico dessas falas ao longo do tempo
Frases isoladas podem até parecer pequenas.
Mas o efeito cumulativo delas é potente.
Quando uma pessoa cresce ouvindo comentários sobre o próprio corpo ou sobre comida, ela aprende que:
- seu corpo será observado e comentado;
- comer é algo que deve ser controlado;
- sair do padrão chama atenção (e nem sempre de um jeito bom).
Isso impacta diretamente a:
- autoestima;
- autocrítica
- relação com a comida;
- percepção corporal;
- segurança emocional;
- risco para transtornos alimentares e comportamentos compensatórios.
Isso costuma piorar no fim do ano, você sabia disso?
Na prática clínica, esse padrão aparece com mais força no fim do ano.
Dezembro reúne fatores que aumentam a exposição:
- mais encontros familiares;
- mais refeições coletivas;
- menos rotina e mais estímulos;
- menos filtro social.
O que durante o ano aparece com menos frequência, no fim do ano se multiplica.
E para muitas pessoas, isso não é gatilho de sofrimento.
Quando a preocupação ultrapassa o cuidado
Muitas dessas falas vêm acompanhadas de um discurso de cuidado:
“é preocupação”, “é pela sua saúde”, “é pro seu bem”.
Mas, mesmo quando bem-intencionadas, esse tipo de comentário pode gerar vergonha, medo, silêncio e restrição.
Não se trata de vilões, mas de responsabilidade sobre o que dizemos
Este não é um texto para apontar culpados.
É um convite para aprendermos e pensarmos, juntos, em como cuidar sem aumentar o sofrimento de quem está por perto.
A maior parte das pessoas reproduz falas e brincadeiras do jeito que aprendeu.
E aprender diferente faz parte do nosso processo de desenvolvimento.
Às vezes, escolher não comentar nada já é cuidar de quem amamos.
Outras vezes, ajustar a forma de dizer muda tudo.
Mas então, o que podemos dizer?
Em vez de comentar o corpo, o peso ou a comida, dá pra falar de outras coisas que realmente aproximam e cuidam.
Por exemplo:
- Em vez de observar o corpo, observar a pessoa.
“Como você tem se sentido ultimamente?” - Em vez de comparar, demonstrar presença.
“Que bom te ver aqui.” - Em vez de opinar sobre aparência, oferecer escuta.
“Se precisar conversar, eu tô por aqui.”
Cuidado não é vigiar, corrigir ou comentar.
Muitas vezes, cuidado é não transformar o corpo do outro em assunto
e permitir que ele exista sem ser avaliado.
E se você já ouviu esse tipo de comentários?
Se essas frases já doeram em você, não foi frescura.
E não significa que você é sensível demais.
Significa que algo ultrapassou um limite emocional real.
Reconhecer isso é um passo importante para construir uma relação mais saudável com o corpo, com a comida e consigo.
Para levar com voc
Antes de comentar o corpo de alguém (especialmente crianças, adolescentes ou pessoas próximas) vale se perguntar:
Isso acolhe ou constrange a pessoa?
Ajuda ou aumenta a vergonha?
Essa fala seria confortável de ouvir?
As palavras que repetimos moldam mundos internos.
Inclusive o nosso.
Se você leu até aqui, muito obrigada.
Com carinho,
Carol.

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