Ela acorda antes do despertador tocar. Não porque está animada, mas porque o cérebro não sabe mais descansar. Há sempre uma planilha invisível esperando por ela, uma lista mental que ninguém pediu para ser tão longa. Mas ela insiste em cumprir cada linha como se o mundo estivesse prestando atenção.
Escova o dente pensando no e-mail que não respondeu. Toma café pensando na meta que não bateu. Olha o próprio reflexo, rápido, para não dar tempo de encontrar defeito (mas ainda assim encontra). A blusa podia ser melhor, o cabelo podia ser melhor, ela podia ser melhor. O “podia” virou sobrenome.
Enquanto caminha pela casa, ela sente aquele peso discreto, quase educado, que a acompanha: a cobrança. A que ela mesma inventou. A que ela mesma alimenta. Ninguém pediu para ela fazer tudo do jeito mais correto, mais organizado, mais irrepreensível. Mas ela faz. E quando falha em alguma vírgula, o corpo desmonta como se tivesse quebrado uma promessa.
Ela tenta, tenta tanto, o tempo inteiro. A cada nova semana, inventa um projeto para ser uma versão ainda mais perfeita do que a versão anterior, que já estava tentando ser melhor que a anterior. É um looping que parece evolução, mas cansa. E cansa porque nunca termina.
Os outros olham de fora e dizem que ela é forte, dedicada, impecável. Ela sorri, porque não dá para explicar que por trás do impecável tem uma pilha de noites mal dormidas e silêncios engolidos. Não dá para explicar que a força, às vezes, é só exaustão fantasiada de disciplina.
E ela segue. Até que um dia percebe (não num estalo, mas num incômodo) que está vivendo numa pontinha de ansiedade o tempo todo. Como quem espera uma nota ruim, um olhar de reprovação, uma mensagem começando com “precisamos conversar”. Tudo isso mesmo quando ninguém está cobrando nada.
É quando finalmente entende que a perfeição não é objetivo. É armadilha.
E que talvez a liberdade não esteja em fazer tudo certo, mas em fazer as pazes com o fato de que algumas coisas vão ser só o suficiente. Não brilhantes. Não exemplares. Apenas humanas.
Porque perfeição só exige e desperta insuficiência. Mas humanidade acolhe e dá espaço…
E é nesse espaço que, enfim, ela começa a existir sem tanto medo de ser menos (e com mais coragem de simplesmente ser).

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